16 de maio de 2012

Velha Infância



"Moça bonita não paga, mais também não leva..."

      "Dias atrás comprei ‘bergamota’ (tangerina) no supermercado, recordei, com ricas lembranças, da minha terra. Na verdade, a bergamota nada tem a ver com o correria da cidade grande, nem com o calor, que mesmo no inverno faz no sudeste. Ela mais parece com a vida campesina, com o silêncio das matas, o cheiro da relva. 
       Lembro que todo sábado passava um velho caminhão, coberto com uma lona mais velha ainda, o chamávamos de ‘caminhão das frutas’, ou simplesmente ‘fruteiro’. O vento gélido nos desafiava a sair debaixo do cobertor que aquecia-nos no sofá. Porém, o som daquele velho carro era chamativo, as promoções anunciadas também agradavam... ‘uma dúzia de banana por um real, dez batatas por dois reais, seis bergamotas por um real, moça bonita não paga, mais também não leva...’ 
       
        Saíamos do conforto da casa, aquecida pelo fogão a lenha, já com uma bacia (das grandes) na mão. Mamãe da cozinha gritava quantos legumes queria, nós - eu e meus irmãos - dávamos nossos palpites na compra semanal das frutas, nem sempre com êxito. Era um momento de muita de simplicidade, porém de alegria constante.
        Uma caixa de banana já era reservada, as frutas mais caras ficavam no estoque do caminhoneiro, vez ou outra, éramos presenteados com alguns kiwis, morangos ou até mesmo com a raríssima fruta do conde. Dividíamos, com certa desconfiança, para que ninguém ficasse de fora. Normalmente, mamãe deixava sua parte para as crianças dividirem. 
        As bananas da caixa nunca sobravam para o doce que mamãe queria fazer, sempre ficava para a próxima semana. O "fruteiro" seguia caminho em diante, sobrava a poeira e o som que minuto a minuto se enfraquecia e se perdia por entre os capões..."

Graça e Paz, xP.

Rodrigo Stankevicz
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