19 de maio de 2013

Fé na própria medida



       A Igreja afirma no catecismo que “crer é um ato eclesial”, acrescenta: “a fé não é um ato isolado”, pois ninguém pode crer sozinho, da mesma maneira que ninguém consegue viver sozinho. No entanto, com todas essas afirmações, há católicos que optam por viver sua fé individualmente e professam seu próprio credo, ou parte do credo ensinado pela Igreja. Escolhem a parte que mais lhes agradam, portanto, uma “heresia”, por assim dizer. O Papa Francisco nos alerta sobre esse mal dentro da Igreja, dizendo: "Cristãos mornos são aqueles que querem construir uma Igreja na própria medida, mas não é a Igreja de Jesus."

       Neste sentido, podemos decifrar o termo “herético”, ele deriva da palavra grega hairetikóscujo significado etimológico é ‘que escolhe, sectário Uma palavra bem significativa para nosso tempo, pois é atual demais, visto que há muitos católicos, que inclusive vão à missa todos os domingos e participam de várias pastorais e movimentos, cujo a ‘escolha’ é justamente a parte do Credo da Igreja, que lhes convém. É impressionante como fazem vistas grossas, ou mesmo anunciam em alto e bom som, a insatisfação com certos dogmas ou posições tomadas pelo Magistério da Igreja. Dizem: "Eu amo a Igreja, mas esse determinado assunto é duro demais, é inaceitável..." Como se pudesse amar algo ou alguém que não se conhece plenamente! Quando ouço algo do tipo, logo lembro da passagem do discurso de Jesus sobre o pão da vida no Evangelho de São João capítulo 6. Jesus falava: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele.” (Jo 6, 56) depois do discurso, relata o Evangelho que “Muitos dos seus discípulos, ouvindo-o, disseram: Isto é muito duro! Quem o pode admitir? (Jo 6, 60). Infelizmente a ótica vista por esses discípulos, acerca das afirmações de Cristo, foi terrena demais, o que levou-os a abandonar o seguimento em Jesus. 

       Na época atual, não é diferente, Jesus continua falando através da Igreja semelhante discurso, com o mesmo teor de dureza e difícil de se admitir pelos discípulos modernos. Mas como se pode manipular ou alterar as  “Palavras de Vida Eterna” proferidas pela Igreja? Em última análise, o que realmente está endurecido e fechado é o próprio coração do homem. Porém, nem todos os que ali se encontravam, sabiam ao certo o que estavam rejeitando, pois muitos daqueles discípulos, cuja a doutrina era-lhes muito duro de se admitir, não tiveram uma experiência profunda com o Senhor, ao contrário, foram atraídos pela curiosidade, ou mesmo pelo magnetismo das palavras daquele profeta, ou ainda pela multidão que atentamente ouvia tão exímias palavras.

       São Josemaria Escrivá elucida com destreza esses fatos quando afirma: “não é a doutrina de Jesus que deve adaptar-se aos tempos, senão os tempos que devem abrir-se para a luz do Salvador”. Com isso, percebemos que a Igreja não deve ser modernizada de maneira que os gostos do tempo e da sociedade sejam atendidos, não esqueçamos que as  modas, as heresias, as palavras dos homens passam, porém a Palavra de Deus permanece para sempre, viva e atual.  A isto soma-se  o coração do homem, cujo a sede do infinito, do absoluto é uma constante como sua própria respiração. Pois Àquele que o criou inscreveu em seu coração o desejo pelo transcendente, de modo que somente em Deus o homem há de encontrar a verdade e a felicidade que não cessa de procurar. (Catecismo da Igreja Católica).


       Deste modo, vemos que uma das incompreensões impostas pelo homem moderno é o aborto; em sua visão míope e terrena,  justifica como sendo uma questão unicamente de saúde pública e liberdade da mulher. Por vezes, tentam ser até razoáveis, afirmando o direito da mulher escolher abortar até os três meses de vida do bebê. Esquecem que, já no ato da concepção existe uma alma querida e desejada por Deus, que a própria ciência atesta: o feto é um ser biologicamente único e irrepetível, não sendo uma extensão do corpo da mulher. Mesmo em caso de estupro não há como negociar a vida, é uma questão fundamental da dignidade humana. O então ministro do Supremo Tribunal Federal Antônio Cesar Peluso defendeu numa determinada ocasião que "a única diferença entre o aborto e o homicídio é o momento da execução", a vida precisa ser protegida pelo estado, sociedade e família, ao contrário do que muitos pensam... Por isso, o aborto deve ser analisado com cautela pela sociedade, antes de se criarem leis de proteção à gestante. Não há lei a favor da vida que exclua o feto.  Todavia, o aborto é apenas uma das questões ditas “duras de serem admitidas”, porém há também a união homoafetiva, cujo conceito fere a natureza humana, a própria anatomia torna clara a particularidade de cada identidade sexual. Além desses dos temas, a Eutanásia da mesma forma entra no rol da incompreensão dos progressistas. Há de se lembrar que o único soberano sobre a vida e a morte é o Criador, não cabe o homem decidir acerca da existência de ninguém, ainda que este esteja sob a tutela do sofrimento. A existência do homem é permeada pelo sofrimento, desde o momento de seu nascimento até a despedida da caminhada terreno, deste modo, não estamos autorizados a encurtar ou prolongar irresponsavelmente a vida de nenhum ser humano. Somente Deus sabe o momento certo para cada um viver, cabe ao homem deixar Deus ser Deus e, assumir sua posição de filho que sabe esperar.  

        Assuntos intrínsecos a existência do ser humano, quando tratados à luz da fé, em alguns causam  escândalos e perplexidade, como relata o Evangelho: “Sabendo Jesus que os discípulos murmuravam por isso, perguntou-lhes: Isso vos escandaliza?[...]Ele prosseguiu: Ninguém pode vir a mim, se por meu Pai não lho for concedido. Desde então, muitos dos seus discípulos se retiraram e já não andavam com ele.” (João 6, 61. 65-66) Está intimamente ligado a recusa do credo integral, ou seja a fé essencial para uma vida espiritual saudável, com o abandono da caminhada. Quando nos distanciamos das verdades absolutas do Credo professado pela Igreja, as forças da fé vão se esvaindo até o cume, onde se encontra a descrença. Ao passo que saímos do centro da crença em Cristo e da comunhão com suas Palavras, a visão espiritual acaba turvando-se, e cria-se um credo baseado nas próprias convicções, deturpando completamente a genuína semente da fé deixada pelos Apóstolos. 
       No desfecho do Evangelho, Jesus testa a fidelidade de seus discípulos mais íntimos perguntando: "Quereis vós também retirar-vos?" Deus sempre espera uma resposta do homem, mesmo diante da incredulidade. Pois com Ele há sempre uma possibilidade de retorno, de vida eterna. Interessante é a pedagogia de Deus para com seus filhos, Ele nunca invade, antes propõe, indaga. Não foi diferente com seus amigos mais íntimos, Ele não impôs sua doutrina, apenas deixa que a consciência de cada um responda ao absoluto do coração. A superficialidade humana, segue cada vez mais gritante, esta brota da falta de reflexão em temas profundos, de uma análise com base em princípios que geram vida, amor e liberdade. Existe uma nítida inversão de valores na sociedade contemporânea, tão arraigada no secularismo que cega as pessoas de boa vontadeneutralizando a voz interior, calando a consciência humana a ponto de negarmos o que sempre foi tido como bem comum. 
        
      Finalmente, somos surpreendidos pela coragem, em meio ao clima de hostilidade, deixado pela ausência de muitos discípulos. Pedro, ouvindo a voz de Deus, através de sua consciência, nos presenteia com uma das mais belas profissões de fé herdada pela Igreja:  "A quem iremos, Senhor? Só tu tens palavras de Vida Eterna." (João 6, 68) A sensatez venceu o medo de se posicionar, o líder Simão Pedro deu voz ao seu interior sedento por Vida Eterna. Significativo é que esta pergunta, ainda hoje, não quer calar! A quem o homem moderno pode recorrer? Por ventura a Ciência poderia responder questões tão profundas e fundamentais da vida? Ou quem sabe a riqueza poderia levar o homem a experimentar o ápice de sua felicidade? Ou então, a filosofia propriamente dita, responderia ao cerne da questão humana? Não. Nada e ninguém poderá saciar o vazio interior do homem, a não ser Cristo Jesus com suas Palavras Eternas! Enquanto os homens não se rederem ao Cristo Salvador, continuarão a se autodestruir em busca de uma felicidade ilusória e momentânea; de ideologias perversas, que estão a serviço da morte e, das paixões humanas mais anômalas.

Graça e Paz, xP.

Rodrigo Stankevicz

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